Com_traste

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sábado, 16 de junho de 2012

aCorda



No sono audaz
Sonho o possível de mim
Mesmo com venda e atada
Vou tão longe quanto iria de olhos bem abertos e livre de movimentos
Acaso ninguém me ouse acordar
E mesmo que o façam
Eu queira continuar no sono em que vivo

Click



Preciso de uma palavra que desencadei em mim todas as outras
A chave mestra da caixa forte
Onde se guardam todas as possibilidades das letras
A formulação de coisas com significado
Para que faça sentido o que penso
Mas só encontro o desencontro do eu
Meu e dos outros
Não encaixo
E o puzzle fica sempre incompleto
Houvesse uma outra forma de eu dizer
Em concreto todo o silencio que me toma
Que talvez eu pudesse descrever esta coisa
Vazia
Ausente
Sempre presente
Que me faz sentir a falta da formula certa
Para me diluir em letras repletas de significado aos vossos olhos

Umbilical V



Não percebo as pessoas
Entendo os Deuses em quem não acredito
Subir a um palco
Não é subir ao céu
Mas babam-se como Baco
E afogam-se no próprio vinho
Lambem-se arrastando os corpos decapitados
E fazem de Zeus, caso não se sintam amados
E Afrodite, dengosa criatura
Ousa amar a própria figura
Idolatram-se
Prometem-se eternos
Mas ai de quem não lhes retribua o beijo
Perdem o pejo
E rogam pragas até ao salvador
E aqui D’el rei
Como podem não lhes beijar os pés?
E vestem e despem-se da nudez
Que o Rei vai nu e ninguém vê
Passeiam-se orgulhos no andor
E o espelho já quebrado
De narciso enfeitiçado
Nada sabe
Nada ouve
Nada vê

Umbilical IV



Tem dias que a palavra amor enche o meu peito.
Pequenina, singela e cheia de força
E eu, rendo-me
Há coisas pequeninas que sei que existem
O teu olhar acusador
Menor que o dedo que escondes a medo na minha presença
A tua língua
Cheia de fel, que usas em grupo e sem pudor
Hoje até a ti beijaria
E é tão bom sentir assim...
Encher o peito de um ar puro e raro
Dizer ao mundo que se é feliz...mesmo assim
Porque nada sois
Nada me atinge
E eu sinto-me completamente consciente
Do que sou e desejo para mim
Para ti
Se fosse crente hoje pedira perdão
Já te julguei
Já te acusei
Já te odiei
Já te chamei todos os nomes impróprios
A ti que serás Maria ou João
Mas não peço
Acho que o que o que sinto hoje chega
Encho o peito e respiro fundo
E todos entram e saem como ar puro
Sinto-me grande
Tão grande que em mim só existe espaço para algumas letras
Sorrio
Por ousar chegar ao limite da minha humanidade e ir ainda mais além..

pré_Conceito



Nos, os monstros
Que criamos com posse
Que amamos com poder
Que fazemos dos outros coisas
Que temos os outros
Que nunca somos os outros
Que enlouquecemos em segundos
Que nos idolatramos
Que nos fo.demos só plo prazer pessoal
Que usamos
Que sofremos por nós mesmos
Que desumanamente somos humanos
Que comemos sem fome
Que não nos conhecemos
Que não confiamos
Que não amamos
Que não damos
Que queremos
Que exigimos
Que condenamos
Que cegamos de raiva e poucas vezes de amor
Que fecundamos sem pudor
Que dizemos É MEU
Que choramos por nós
Que nos confessamos apenas para poder continuar a pecar
Que amamos a um Deus umbilical
Que nos ignoramos
Que desconfiamos
Que maltratamos
Para quando os direitos dos animais?
Que de humanos têm mais
Cuspo na sopa que como
Lambo o cu ao dono
Cago na rua que moro
Rio do homem que cai
Choro só quando me doí
Ladro ao bêbedo
Canto ao ladrão
Sou mais cão que o cão
Deito-me feito cabrão
E aponto o dedo ao leal
Conto histórias sem moral
E a culpa é sempre do outro
Sei leis
Sei matérias
Sou douto em coisas etéreas
Alquimista
Mágico
Sou tão capaz quanto louco
Haja a porra de um Deus maior
Que acabe com esta dor
E acabe com este monstro

Umbilical III



Dizia eu
Que quero ir por ai
No caminho nunca trilhado
Na descoberta constante de limites que sabemos ultrapassáveis
Viver é tão pouco se nos bastarmos com o aceitável..com que é imposto
O único limite somos nós e a aceitação do outro
Havendo um outro que nos entenda
Que nos siga ou nos ajude a não enlouquecer sozinho
Então nós poderemos saber ao certo quem somos
Até onde poderá ir a nossa capacidade de viver
Até que ponto ousamos ser nós mesmos
E todas as coisas pequenas passam a ser tão grandes
Os dias terão todas as horas que quisermos
Comer é um acto divino
E nós os Deuses
Passear nu pela casa ou apenas sair à rua de mão na mão
É a felicidade plena
Como plena é a sensação de que ousar ir mais alem..faz sentido
Faz todo o sentido
O amor dito em palavras obscenas
O acto quase animal cheio de ternura
E doer o corpo por não conseguir acompanhar a mente
Quente
Que se refresca num banho ou num copo de vinho

Dia Santo



É domingo
É domingo como poderia ser um outro dia qualquer
Haja Deus que nos oriente os dias.. inúteis somos nós!
Os domingos acontecem sempre da mesma maneira
Acordam, ora com sol ora com chuva
Ora com frio na pele ora com carnes a destilar
E dizem sonolentos: Bom dia!
E o meu corpo não entende a felicidade das palavras madrugadoras
Estica-se preguiçoso nos lençóis e tenta manter-se enroscado no vazio do impasse
A esta hora haverá gente a ir para à missa, pecadores, aposto.
Outro a correr alegremente em parques verdes..eternas crianças.
Outros a preparar almoços de mesas cheias..colos e cordões umbilicais, castradores mas amantes verdadeiros.
Outros vagueando por ai...os ausentes, os sem cama, sem tecto, sem nº de contribuinte
E eu...estendo-me preguiçosa no leito
Penso-me rio..e abraço as margens de algo irreal
E imagino-me a acordar num outro dia qualquer...sorrio, por saber que se não fosse domingo eu não acordaria assim...
Completamente à margem...do tempo e dos outros
Fosse eu crente e daria graças...
Preparo o banho e enrosco-me novamente em mim