sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

PINGA Amor


Chegara os tempos de chuvas

Ping

Ping

Ping

Soava lá fora copiosamente a fazer-se escorrer pelas securas da vida de verão..

Talvez por de tão seca a vida, ela ansiava há muito pelo tempo de chuvas…

Outrora mais certa, outrora mais segura.

Mas chovia…Amor
Chovia tanto!

E o ping ping era música composta por sons doces

Que escorriam pelas mãos

Pingavam os dedos

Pingavam os olhos

Os beijos

Os sussurros

Ping

Ping

Ping

Pinga amor…

Mesmo dos beirais...

com ninhos de andorinhas esquecidas do verão.

quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

CRIME...Disseram ELES


Cegavam olhos nos olhos

Corpos unidos num só

Esvoaçam palavras sussurradas ao ouvido

Como notas soltas da melodia escutada em silêncio

Rodopiavam como dois dançarinos profissionais

Entre dois copos de vinho e a garrafa vazia no chão.

Sintonizados na perfeição

Passo lento

Um

Dois

Um

Dois

Repetiam incansáveis, querendo mais e mais

Passo rápido

Dois

Dois

Dois

Só parando nos olhos e na palma de cada mão

Bebiam de si próprios

Em cada novo trago redobravam forças

Não pares, diziam cúmplices as suas bocas

E sem temer punição

Cometerem o crime perfeito…juntos.

Mãos nas mãos

Baralharam o rasto das impressões

Olhos nos olhos

Aniquilaram as únicas testemunhas oculares

Beberam até à última gota para não deixar rasto de si

Apenas os dois copos e a garrafa vazia jaziam na cena do crime

Ao fundo do quarto um disco girava ainda…

Um tango como álibi…

http://www.youtube.com/watch?v=0Qo4E4iAnCQ

segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

A GAVETA DAS ESTÓRIAS


A gaveta das estórias...


Os dias ficaram subitamente mais pequenos, começara a amanhecer com menos luz e com uma aragem que dava um arrepio bom na pele.

As noites, essas seriam tão longas como as saudades das noites à lareira, como a manta quentinha feita de restos de lã pela minha avó Luísa, como as tranças negras que eu tinha em criança e que enfeitava com pequenos laçarotes nas pontas…

Era aquele tempo de fazer arrumações, de trocar as roupas frescas pelas quentinhas de Inverno, de agasalhar o corpo e alma para que não passassem frio…era aquele tempo.

Sem perder tempo comecei pela Minha cómoda.

A cómoda não era uma cómoda qualquer. A Minha Cómoda era uma cómoda enorme, feita de madeira robusta, tinha um tampo em pedra mármore onde desfilavam retratos de todos os rostos com nome que fazem parte de mim.

A cómoda tinha muitas gavetas, umas grandes, compridas e fundas que guardam as coisas maiores. Depois tinha gavetas médias, de tamanho adequado para as coisas assim-assim. As gavetas mais pequenas eram quatro, umas cheias de coisas pequeninas, mas não menos importantes, outras cheias de vontades…apenas.

Retirava as coisas grandes das gavetas grandes, com tempo, muito tempo…olhava e voltava a olhar, limpava cuidadosamente cada recanto de cada gaveta antes de as voltar a encher com as coisas grandes. Algumas dessas coisas grandes eram antigas, outras havia que foram parar ali há bem pouco tempo…apenas porque o seu tamanho exigia uma gaveta assim.

Nem sempre me lembrava das coisas grandes que tinha nas minhas grandes gavetas da cómoda. Talvez a certeza da existência delas me fizesse por vezes esquecer da sua importância. Só naqueles momentos em que as olhava mais cuidadosamente, as cheirava e acariciava com ternura, me vinha à memória todas as estórias daquelas minhas coisas, todas as coisas grandes que aprendera com elas, todas as coisas muito boas e todas as coisas muitas vezes também muito más…mas eram todas as minhas coisas grandes! Depois, fechava as gavetas grandes das coisas grandes e sorria, jurava sempre revelas no dia seguinte….

A seguir abria as gavetas médias das coisas assim-assim. Tinha piada ver que algumas delas seriam do tamanho da gaveta grande, mas como eram de fácil arrumo, podiam ser dobradas, redobradas, apertadas e aconchegadas sem perderem nunca a forma nem as qualidades, eu aproveitava e colocavas ali, perto das coisas assim-assim. As coisas assim-assim eram coisas normais, tinha vezes que até pensava ter guardado só por guardar, outras pensava sentir a sua falta e sorria por as reencontrar ainda.

Dentro destas gavetas tinha ainda o meu primeiro beijo..nem sempre o guardava na gaveta certa…nem sempre o sentia do mesmo tamanho. Hoje reencontrei-o dobrado e encostado ao lençol de linho que a minha avó bordara em pequena.

Há memórias que se juntam como por acaso…só como por acaso…

Nas gavetas pequenas demorava mais tempo.

É incrível como há coisas e coisinhas, quase sem tamanho mas que demoram uma eternidade a arrumar, limpar e tratar. Era a caixa dos botões de punho, a caixa da costura com agulhas, linhas e dedais, o saco das coisas velhas que algum dia serviriam para alguma coisa, quase de certezinha!! Papéis e mais papéis já sem letras muito visíveis, cartões fora de prazo, cartas, postais e fotografias de outros tempos. Tanta coisa pequenina nas minhas gavetas pequeninas! Quase me esquecia de arrumar as outras gavetas pequeninas, aquelas só cheias de vontades…abri apenas para que entrasse um pouco de luz do dia, arejar para que não ficassem com cheiro a tempo. Depois voltei a fechar..estavam meio perras mas com jeito consegui, fecharam sem fazer muito barulho, era boa aquela madeira da minha Cómoda.

Por fim sentei-me a olhar para ela. Olhava e voltava a olhar, depois de tudo arrumadinho no seu lugar.

A sensação de dever cumprido enchia o peito e dava aquela segurança no olhar.

Era bom ficar com a certeza que todas as coisas estavam no lugar certo, tudo no seu devido lugar!

Depois limpava o pó aos retratos dos rostos com nome, aqueles que ficavam em exposição diária, que traziam história às minhas estórias e ficava ali a olhar demoradamente para a Minha cómoda.

Depois pensei: É muito Cómodo ter uma Cómoda assim…


Abri a janela e ainda cheirava a primavera…

terça-feira, 14 de Abril de 2009

A MINHA PORTA...




A minha porta está velha…não me lembro muito bem de como era a minha porta antes, supostamente era nova como eu era.
Na rua de Arouche nº 25 erguia-se uma casa, 1º andar humilde, poucas divisões e tectos de caniço, uma cozinha com um tanque de pedra, uma sala de jantar com janela cheia de vasos de flores (agora lembro que era como se fosse o nosso jardim..ilusões dos olhos dos pobres), uma casa de banho onde não se podia tomar banho, dois quartos, uma sala de entrada que, como o nome indica, ficava-se nela assim que se entrava por uma escadas longas e perigosas (ainda me lembro da cancela de madeira ali colocada para que se evitassem acidentes), um dos quartos era interior, a única luz natural que tinha era de uma telha de vidro colocada bem lá nas alturas…era um quarto com muitas camas, o outro quarto (o dos meus pais) tinha 2 janelas para a rua e uma porta que dava para uma espécie de sótão, o sótão de todos os trastes velhos, de todos os utensílios e inutensilios, o sótão de todos os sonhos (um dia conto-vos os sonhos daquele sótão).
Nesta casa, a casa da minha porta da rua de Arouche nº 25, cresceram três meninas.
Hoje passei na Rua de Arouche, ao ver a casa da porta nº 25 o tempo parou…
Vi uma porta velha, uma casa abandonada, a única casa que se encontra em mau estado naquela rua. Na casa da Dona Irondina (nem sei se é assim que se escreve ou se leva H..naquele tempo, no tempo em que ela era a vizinha do rés do chão, eu mal sabia escrever) agora há uma loja de bordados e toalhas de renda, na casa do senhor Silva (antes havia um casão onde ao fim do dia o esperávamos para o ver guardar o carro das “bestas”) há uma loja de computadores e um escritório de contabilidade, na casa do Victor já viveram lá tantos outros que não sei o nome, na casa da Zézé já não há a loja de electrodomésticos do senhor Malveiro (ai as estórias que aquela loja tinha para contar!) e em frente a esta casa já não existe a casa do faz de conta onde íamos brincar aos pequenos vagabundos (o que valeu alguns dissabores e más recordações a muitos de nós), e a casa da Célia, com a taberna do pai dela (uma taberna enorme e onde se ouviam cantar os homens ao fim do dia) também já não existe como antes.
Todas as casas da rua de Arouche são agora outras casas, só mantêm o nome da rua como antes, são novas, modernas portas e janelas, modernas pessoas, modernas vidas…só a casa da porta nº 25 é uma casa velha com uma porta velha.
Hoje passei pela rua da Arouche, a minha rua, a minha casa, a minha porta..
Hoje fiquei com vontade de vos contar todas as estórias que aquela rua, aquela casa e aquela porta contam ainda em mim..
Naquela casa cresceram três meninas…
Não é por acaso que é necessário bater à porta com aquela mão…
Acredito que não foi por acaso que ninguém modernizou aquela casa, que ninguém habita aquela casa…hoje agradeci em silêncio por o não terem feito…
Tenho tantas estórias para contar…da única casa com porta velha na Rua de Arouche.
Naquela casa cresceram três meninas..
A Fátinha, a zézinha e a Natalinha com uma avó que se chamava Luísa e fazia sonhos..

Shiuuu eu conto…

domingo, 12 de Abril de 2009

HISTÓRIA E ESTÓRIAS


Ladrava o cão
Na rua mais torta
Da vila cansada
Da terra mais morta.
Passou um homem
Andando aos tombos
Culpando a rua
do peso dos ombros.
Abriu-se a janela
Da casa mais térrea
Ouviu-se um shiuuuuuuuuuuu
De forma zangada
Eram altas horas
já estava deitada.
O homem parou
Olhou pra janela
Virou-se pró cão
Mandou-o calar
Contendo o riso
Continuou a andar.
Seguido do cão
Já sem ladrar
Chegou-se à porta
Abriu o postigo
Gritou lá pra dentro
Alguém dá abrigo?
De dentro da casa
nada respondeu
O homem entrou
sentou-se e comeu
Enquanto na rua
o cão uivava
A mulher dormia
sem dar por nada.
Naquela rua
ainda cá mora
um homem sozinho
já muito cansado
procura no vinho
viver o passado.
Já não há rua
como a rua de antes
nem o cão ladra
nem a mulher dorme
só ele cá anda
plas pedras gastas
pela terra morta
é tudo o que resta
nesta rua velha
um homem
sozinho
uns copos
e tombos…

quinta-feira, 9 de Abril de 2009

A OUTRA METADE DA...CEREJA



Não sei o que quero nem porque espero
Não sei o que me faz andar assim
Não sei porque insisto
Nem porque imploro
Não sei ..mas grito
Nada me acalma
Nada me sossega
Nada há que me adormeça a raiva
Não sei porque grito
Mas grito
Exausta
Cansada de mim me quedo
Nem sei bem o que espero
Mas espero
E em cada revolta me seguro a âncoras de algodão
E fico boiando na consciência do exagero de mim
Não devia ser tanto
Não devia ser
Depois olho os outros com certezas duvidosas
Que dependendo do turbilhão que há em mim
Assim lhes rio ou lhes grito
Sendo sempre a mesma realidade que me cerca
Não a condeno à pena de morte em dias sim
Mas sou a própria forca em dias não
Sei todas as regras
Sei todas as fugas às ditas
Sei os segredos dos meus Deuses
Sei até que ignoro a diferença entre o que existe e o que invento
E consigo afiar a faca de ponta e mola nos dentes do destino
Quando o apanho a sorrir
Embriagado pelo prazer alcoólico dos copos vazios dos bêbados vagabundos
É meu aliado na chacina social a que me dedico quando sóbria
Depois há momentos em que me embriago totalmente na ingénua e pura fantasia
Na crença que se faz amor com a poesia
Existem rosas de cor púrpura em cada madrugada
Assim corto os pulsos à desdita
Mato a cruel nascida em mim, fruto de infidelidade dos meus Deuses
E solto loucas gargalhadas
Por me saber tão doce como as cerejas.

domingo, 29 de Março de 2009

DIVAGAÇÕES SOBRE NADA


Se trago as mãos vazias porque me pedem tudo?

Acaso não saberão ver o quanto nada é mesmo coisa nenhuma?

Mas insistem Pedem tudo uma e outra vez.

Olho ainda para elas… não vá eu já nem sentir o peso de tudo

Não vão elas ter algo que vos pertença e eu não sinta

Olho-as mas vejo apenas coisa nenhuma

Cheias de um vazio imenso São duas mãos de nada

E mesmo assim, como um louco que não sabe o porquê das coisas

Num gesto natural de como quem sêmea o trigo em campos ressequidos,

Estendo as mãos e dou tudo o que trago nelas

Um vazio imenso

Um enorme nada

Depois sinto-me mais leve, jogara fora o peso que trazia

O vazio agora é vosso

Fartem-se

Lambuzem-se de gulosa ignorância

Encham-se de tamanha ambição

A ganância que nos olhos vos brilha

Agora satisfeita, incha-vos as bocas

Os estômagos dilatam

Engordam a olhos vistos os egos

Reflectidos nos sorrisos incontidos de vitória

Um ou outro lutam na disputa de um nada maior

E eu simplesmente olho as mãos

Que vos satisfizeram a mesquinha gula do nada

Vejo-as agora cheias

Repletas de pesada culpa

Não me resta nada mais que as mãos

As mesmas mãos que voltarei a encher de nada

Para que vos possa voltar a dar tudo


(Enquanto isso, disfarço a vergonha escondendo as mãos nos bolsos ... )