Com_traste

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terça-feira, 20 de agosto de 2013

Eclipse

Fugir da lua e do sol
Como quem brinca ao esconde esconde
Apenas para passar como sombra
Discretamente
Por entre os dias e as noites
Até que se unam num eclipse
As coisas
E faça sentido acordar e adormecer...como as pessoas.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Falta-te um bocadinho assim »...«

O tempo...é aquela coisa que fica contida entre o indicador e o polegar
Quando seguras uma ervilha e estás feliz
O tempo...é aquela coisa que fica entre o isqueiro e o cigarro
Quando estás a tentar deixar de fumar...e estás...nervoso
O tempo...é aquela coisa que fica entre a recordação de um beijo...e o sorriso que fazes ao lembrar...
Quando estás consciente que a vida são momentos
O tempo...é aquela coisa que fica entre a dor no peito e um suspiro...quando tens saudades de algo
O tempo...é uma estrada acidentada...quando não sabes se deves ir ou ficar
O tempo...é o eco no fundo de um poço
Quando repetes vezes sem conta o erro de não beberes quando tens sede
O tempo...é o tempo que levas a pintar as brancas...mesmo que arrastes os dias a tentar disfarçar
O tempo...é aquela coisa doce em forma de nuvem...que te deixa os cantos da boca pegajosos
O tempo...é...longo
Quando o fazes teu e partilhas
E entendes que ele é a tua única sina
Quando desenhas na palma da mão o teu destino.


Tu no eres tu

Tu boca es mi boca
Cuando de los amantes cuentas cuentos
En mis besos
También tus ojos son mis ojos
Cuando mi punto de orientación
es lo que ves em mi
Cuando mi piel ya no es mi piel
por reunirse contigo en la carne
de sangre
caliente
donde se cruzan dos seres en uno


sexta-feira, 9 de agosto de 2013

voz de exclamação

Estava sempre cheia de duvidas
Cansava por se fazer tantas perguntas
Uma vez descobriu que senão usasse pontuação
Tudo ficaria mais fácil
Assim se encheu de certezas
E o mundo
Aquela coisa redonda com dois olhos e com muitas pernas
Começou a contraria-la
E a cada suposta certeza
Duvida não pontuada
O mundo ria, desdenhava e desmentia
E ela
Ela aprendia
A ter resposta sem nada perguntar

voo rasante

As andorinhas partiram
Algures mudou a estação
E um homem parado no fim da linha
Simplesmente ficou a vê-las partir
As coisas simples são assim
Mas os ninhos
Os ninhos ficam para nos complicar a vida
E neles
Todas as coisas complexas
Como a esperança
A duvida
E a vontade de acreditar que somos capazes de fazer algo mais que ficar ver acontecer as mudanças de estação

Despiste

Nunca saia com duas meias iguais
Esquecia-se de deixar comer à gata
Voltava sempre a casa antes de entrar no carro...quase sempre era o telemóvel ou o bloco de apontamentos que ficavam para trás
A vizinha todos os dias tinha um nome diferente
No trabalho, a agenda estava sempre aberta nas paginas do futuro longínquo
Quando viajava de casa para o trabalho, ligava o Gps para um destino do outro lado do mundo
Ouvia a rádio apenas por simpatia..cantava sempre a mesma canção e de vidro aberto, cumprimentava o condutor do carro do lado, acaso o vermelho a fizesse parar...com um sorriso cúmplice
No parque de estacionamento, desenhava golfinhos no chão, outras vezes andorinhas...e serviam de pistas para o regresso
Quando a convidavam para festas...levava sempre um presente mesmo que fosse passagem de ano de todo o mundo
Na lista de contactos de telemóvel...adicionava um nome das historias infantis a todos os seus amigos
Raras eram as vezes que não atendia à gargalhada...por a branca de neve ser negra ou o príncipe com orelhas de burro o ser completamente.
Uma vez mudou a cor do cabelo...e ligou ao canalizador na manhã seguinte...para verificar o que se passava na canalização que a agua do banho estava negra...
Quando chorava...nunca conseguia explicar porque o fazia...e quase sempre acabava por arranjar outros motivos...embora o pessoal do trabalho estranhasse ela estar tantas vezes nos "dias difíceis"
Um dia...perdeu-se
E até hoje coloca anúncios nos jornais
Convicta que algum dia terá sorte e...alguém se lembre de a ter visto por ai...


Anonimato

Ninguém o conhecia
Costumava parar na esquina do quiosque
Comprava sempre o jornal de letras (aprendera a ler desde muito cedo e nunca teve jeito para desenho)
Um maço de cigarros sem filtro
(Gostava de ter motivos para cuspir em publico)
Uma caixa de chicletes de menta
E seguia até ao café do mercado

Também sem ninguém o conhecer
Serviam-lhe a bica curta com o habitual copo de agua
Até ao final da manhã seria visto por centenas de pessoas que por ali circulavam
Não tinha carro, e era habitual vê-lo fazer grandes caminhadas a pé junto ao rio
Falava com os pescadores...sem nunca ter ido à pesca
E não eram raras as vezes que um cão vadio o seguia até casa
E algumas noites adormecia no tapete velho junto à porta
O nº da porta era o 48
A caixa de correio estava identificada, e todos sabiam que ali não valia a pena colocar publicidade
Não consta que recebesse muitas visitas
Nem o vizinho do lado se lamentava de barulhos estranhos... partilhavam a ligação à Internet
Um dia nunca mais ninguém o viu
E consta que diariamente era lamentada a sua ausência
Bom Homem...disseram alguns quando questionados pela menina da televisão...e em todas as reportagens não costa que alguém fizera referência ao seu nome de baptismo.

E até hoje a caixa do correio identificada ...
Pode ser que volte
Pensa o vizinho
E no tapete ainda dorme o cão
Boby
Que todos continuam a alimentar diariamente...
Bom amigo, o Boby...o melhor amigo do Bom Homem!