Com_traste

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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Haja Deus




Não sou crente
E rezo para que exista aquela hora
Em que nasce o ser supremo prometido
Da virgem
Pura e virtuosa criatura
Que em nós existe adormecida
Na espera da visão alucinada
Que conceba a força determinada
De mudar o mundo em que vivemos
E nessa crença escondida
Deitamos a consciência
Deixamos nas mãos ausentes
O presente
Do futuro que desejamos
Profanos
Seguimos libertos do pecado
Até darmos à luz…a nossa verdade
E cairá a cruz que carregamos
Num milagre tão humano
Como o parto do menino
Que nasce depois do acto
De dois corpos mortais
Em êxtase

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O fim do Verbo


Quando se afogam as palavras
Aflitas em agonia no peito
Lanço-lhe a corda
E pela mão
Puxo em frases escritas
Todo um leito
Quereriam morrer novas ainda
Talvez um suicídio eu abortara
Mas por ama-las
Só por ama-las
Mataria eu pela própria mão
E morreriam todas de outro jeito
Agora beijo-as
Na tentativa vã de reanimação
Soluço a agua
Tomo o pulso
E morrem lentamente no momento
Luto
Sem pranto feito
Já não importa
O tempo urge
Na cama as deito
Silencio
Aqui jaz
A palavra
Sem descanso
Eternamente pretérito
Num presente mais que imperfeito

..


A poesia
É a linha e o espaço
Que abriga os pássaros encantados
Na união dos cantos íntimos
Quando surge a melodia
Em acordes dedilhados com as unhas
Na pele que vibra
Sopros entre os dentes
Sobre os cabeços
Pausas na ponta da língua
Em espera

A poesia
É um bater de asas
De voo acrobático
Quando todas as coordenadas foram baralhadas
E cai na rede
A palavra
Em versos
Soletrados a medo

A poesia
É a hora H
Como bomba
Rebenta nas mãos do incauto
Deixando surgir a falta de pontualidade
De astúcia e cautela
Denegrindo a imagem que se quer manter a custo
Do reflexo social onde nos olhamos
E nesse momento
Acontece o inesperado
Surpreendes-te
Com a realidade
Do que és
Em estilhaços

A Poesia
É pura invenção
Só os loucos afirmam a sua existência
E talvez por isso
Sejam felizes
Sem terem escrito um único poema

...


No enleio
Das palavras que penso
Não digo
E escrevo
Perco-me na busca
E à deriva surjo
Boiando no leito do rio que corre sem rumo
Arrastando em minhas margens
O novelo
Do que sou
Sinto
Penso
Duvido
Talvez a única forma de fazer sentido
Seja enrolar as palavras
Como quem enrola sonhos
Polvilha-las com açúcar e canela
E degustar o momento
Em que se desenrolam entre a língua e o céu…da minha boca.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

...



Senta-te
Olha-te no vazio dos olhos fundos desse espelho
Sorri
Ou aprofunda a expressão do rosto que marcam os veios em torno dos lábios
Isso
Agora risca a sombra desse olhar
Lambuza de branco a envolvente das palavras
E no centro o rubro fingimento
Nos lábios que nada expressam de verdade
Coloca a bola no nariz
Perfeito
Nas maçãs podres do rosto
A chapada
Dando aparência ao contraste
Com as mãos
Essas mãos que agarram sem grande convicção as coisas
Penteia a falta de cabelo
Disfarçando brancas com a cor do imaginário
E cobre as ideias de liberdade
Com um chapéu de palha
Da que antes as andorinhas fizeram ninhos
E imagina a primavera
Na única flor que brota
Papoila em ramo de espiga
Dando à tua imagem o ridículo da visão dos outros
Veste-te agora
Esse corpo mais frio ainda
Depois dos remendos
Bocados pouco uniformes
Disforme também no padrão
Que não segues deliberadamente
E nos pés
Os descalços sapatos
Que pisarão o palco em passos pouco aderentes
Mas antes de ires
Olha-te novamente nesse olhar fundo do espelho
Apenas para que não te restem mais reflexos
Que esse
Viver assim
Até que a morte te separe
Do palhaço que há em ti

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Balões sem fala









Pensava a cores
Como de cores lhe nasciam os sorrisos
Não eram sonhos, não
Eram pensamentos em forma de balão
Qual personagem de BD
Pensamentos visíveis
Nos olhos
Nos lábios
Nas mãos dançarinas
Nas palavras traquinas
Em pequena era assim
Gaivota
(nome que lhe deram por ser franzina e qualquer brisa a fazer voar)
De pernas finas
Mas agora lembra que voava
Não por ter asas
Mas por pensar em forma de balão colorido
E agora
Quando o tempo é de gaivotas em terra
Por vezes quebra
Cai
Acinzentam os pensamentos
Chovem mil tormentos
Mas
Logo logo sorri
Em balões de fala colorida
Por saber ser assim
Invisível a cor da vida
E haver balões que enchem com a imaginação

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Só...Rio


Só-rio
Na corrente do leito
Enquanto nada a força da ausência
Do corpo com ancora
Como objecto vazio abandonado
Só rio abaixo
Porque nos lábios húmidos entreabertos
Falta a profundeza do sorriso
Quando num beijo se afogam todas as almas
Sem foz onde se possa amar
Mas onde todos os sonhos vão morrer
Nascendo apenas porque num rio só
Se juntam todas as gotas da solidão
No mesmo leito incerto
Onde se deitam todas as palavras
Em correntes desancoradas
Dando liberdade a todos os afluentes
De se transformarem na junção
De abraços líquidos
Só-rio
E abrem-se os lábios num beijo
No sorriso em agua desfeito
Ficando nas margens os seus destroços