Com_traste

Com_traste

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Rugido


Não há tempo nem espaço
Que eu consiga inventar fora de mim
É tudo uma ilusão do meu umbigo
Que em espiral se interioriza
E me faz centro
Soubesse eu nascer como as plantas
E seria a (H)era que se enrola nas coisas
Cresce sem necessitar de muito alimento
E ergue-se mais alem
Mesmo depois do tempo acabado
Sempre fora do espaço destinado
Soubesse eu afinal porque nasci
E talvez não me revoltasse tanto com o facto de existirem fora de mim
E o mundo fosse aquele movimento único
Dos olhares profundos
Quando nos olhamos e nos vemos semelhantes
E mesmo em risco
Nos deitamos quando cansados
Adormecendo encostados à juba do leão
Sem que um nem outro estranhe a ousadia
Por empatia…do bater do coração

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

TEOREMA




Subtraio-me
À totalidade da existência
Por me querer dividir em partes
Sem restar nada
Que possa adicionar à variável do tempo
Incógnita existência
Que me equaciona dia a dia
A probabilidade do ser
Eu
Subtraio-me
Por me sentir múltipla
Infinita capacidade
Nula, quando me resto na única formula
Em que os outros avaliam o todo
Aprendemos desde cedo
O valor que se dá a
Pi……………… (palavrão) da vida
Quando à esquerda nos situamos
E nos fazem duvidar do axioma
Pela erro da forma
E pela falta de espaço
Restando o que conseguirmos somar
Para depois subtrair de nós
Na divisão em que nos repartimos com os outros
Sendo o fim
Uma linha recta
Na horizontal do tempo
E a probabilidade de erro permanece intacta por sermos simples mortais.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Casulo




Já não há tempo
Frio ou quente
Que dê sentido à metamorfose
Em tempos….amenos
Era por osmose
Que se diluía o corpo e a alma
Em mares comuns
Onde nos banhávamos
A solução era composta por todas as partes que ousávamos ser
E nus…uníamo-nos
Completando a essência una
Negando as formulas cientificas
Mais que comprovadas por estranhos
E nós..éramos
UM
Sem tubo de ensaio
Por ser ciência exacta a nossa mutação
Da junção do corpo com o incorpóreo
Já não há tempo
Frio ou quente
E dentro do casulo
A coisa
Apenas sente a ausência
Envolta em camada e camada
Na bolsa inundada de memórias
Sobrevive à espera
Talvez chegue a primavera
E de num bater de asas
O parto em aguas doces
Dê vida à possibilidade que existe em cada hibernação
De transformar a matéria em qualquer coisa
Mais pura
Mais ela
Mais etérea
E depois volte a sorrir em cada nova madrugada
Por poder voar para fora de si
Lugar onde sabe que se pode encontrar.

Era uma vez....duas ou três..


No reino dos sem cabeça
A única fabrica que existia era a de fazer chapéus
Nesse dia deram ordem
Procurem por todo o lado
Nas casas, nas ruas
Nos rios, no mar
Nos poços
Dariam recomPensa
Procuravam cabeças
Perdidas
Doidas
Varridas
Ocas
Formatadas
Agora são procuradas
Para dar cara à mão
Que usam e abusam na confecção
Para depois dar lógica ao objecto manuFacturado
Manequins usados
Rostos com pouca expressão
Mas
Pelo sim, pelo não
Pegam na cabeça mais à mão
E enchem-na de sentenças dadas
Atafulham-se de pensamentos repetidos
Algumas pequenas estórias
Factos nunca comprovados
Crenças e imagens de submissão
Ainda há lugar para memórias
História, chamada tradição
Olham-nas ao espelho expectantes
E enrolam ainda as pontas dos cabelos
Espetam bicos esbranquiçados
Ousados
E a cabeça caçada
É agora enfeitada com um belo travessão
Fixador de ideias
E houvesse tempo
Cobririam ainda as brancas
Mas as falhas já são tantas
Que de nada serve a tintura
Assume-se como nova moda
E ma.deixa, sim ou não
Ergue-se a cabeça enfeitada
Segue em frente presumida
E em fila de espera aguarda
Que mais uma outra cabeçada
Lhe dê ar de decidida
E assim continuam os tempos
De cabeças desOcupadas
E se algum pensamento louco
Ou uma outra convicção
Lhe possa causar defeito
Refazem o risco corrido
Pente fino sempre à mão
Temem o quebra cabeças
Pensam na decapitação
Então penteiam ideias
Ou disfarçam com perucas
E na terra dos sem cabeças
Tudo corre na perfeição
Importam peças já gastas
Exportam a nova geração
E as máquinas sem parar
Facturam de noite e dia
E se alguma cabeça dura
Ousar pensar em mudar
Cobrirão suas ideias
Com valores adulterados
Prendem a força dos sonhos
Dizem-se donos da razão.


Chapéus há muitos…pois então!

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Confidências...




Em tempos idos
Enlaçadas palavras aos ouvidos
Rodopiando na memória
Toda a minha história
Zunzuns de sentidos
Na ponta da língua esgrimidos
E dedadas
Assinalando o trilho com a impressão transmissível
Da derme arrepiada
Suando em cascatas cristalinas
E as crinas
De montada alada
Fantasia sempre imaginada
Da mente intransigente
Que à dentada te devora
E depois cora
A outra face que se dá
Ao mundo inventado à pressa no sofá
Frente ao aparelho comandado
Teclas calcadas
Vidas outras contadas
De novelas caprichosas
Exigindo finais empacotados às doses
Comprimidas felicidades momentâneas
Não estranhas
Fazendo-te personagem principal
Sem fala
Descolas-te da caderneta
Repetidamente foges
Ousas sair da linha
Por sina torta
Por sina entre
Por sina alinhavada
Em pontos
Bordando na palma da mão
O único
Final feliz improvável
Por afoitar-se na junção
De unir outra mão
Decalcando o ponto em …
Inconfundíveis sinais

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

TOURADA


Andava cansada
Farta das lides
Ora domesticas
Ora selvagens
Raramente se encontra satisfeita com a sua performance
Nas domesticas
Sabia o sitio de todas as coisas
Mas parece que elas tomavam vida própria
E depois de bem colocadas
Era sempre fora do lugar certo, que ela as voltava a encontrar
Um quadro que é quadro deveria saber estar exposto
Mas parece que não lhe bastava..estar
E ora tombava para a esquerda ora para a direita
Um bibelô
Será sempre um bibelô
Mas os dela não
Eram bibelôs com personalidade bem vincada
Uns partiam-se e ficavam ali a “bibelôsar” na mesma
Orgulhosos de si
Altivos
Acumulando o mesmo pó e indiferença que os outros
Outros
Eram objectos com utilidade
Mas mesmo assim, reafirmavam-se todos os dias
Como que saindo do armário, serviam para o oposto da sua condição
Ou até para nada..inutilizando-se, como quem diz que só vive e serve quem quer
Mas as lides selvagens
Aquelas com que ela nunca aprendera a lidar
Que nascem da selva dos acasos
Das coincidências
Do lugar certo e hora certa, cúmplices
Que de forma audaz, impulsiva, genuína e quiça improvisada, ela enfrentava
Davam-lhe luta
Olhavam-na nos olhos como que a tentando à prova final
Ela não gostava de ver sangue
Não defendia a pena de morte na praça publica
Mas atrevia-se a entrar na lide
Sem capas enroladas
Nem passos de cavaleiro apeado
Muito menos usava montada que lhe facilitasse a festa
Ousava pois enfrentar a fera nos olhos
Nua, debaixo das luzes do traje
Dia a dia descobria afinidades
Paixões com a besta feroz
Conseguia ver sempre o lado bom da “coisa”
Sabia-se aprendiz
Incapaz de se ver levada em ombros
Muito menos que lhe dessem a honra sanguinária
De cortar rabos e orelhas
Cada aplauso ou olé
Entenderiam apenas como um acaso momentâneo
Alguém mais distraído que seguia a lide como os cabrestos
E ouvia sinos em vez de chocalhos
Acusando vida em movimento
Para que não se descuidasse nem um pouco
Era astuta
E dançava ao toque da banda
Alimentando sempre o improviso do passo
Mas cansava-se também…
E sabia impossível manter arrumada toda aquela confusão
Mas em dias de arrumação
Coloca tudo em gavetas
Limpava tecto e chão
E viesse alguém ou não
Estaria tudo guardado
E só pedia em pensamento
Que ninguém ousasse abrir os seus compartimentos
Receberia então os chapéus
E sorria à ovação.

Espantalho


Quando o homem pássaro se esquece de voar
O tempo passa
O tempo voa
E ele esquecido
Parado
Quieto
Adormecido
Quando o homem pássaro se esquece de sonhar
A noite cai
O dia nasce
E ele esquecido
Parado
Quieto
Adormecido
Quando o homem pássaro se esquece do rumo
A vida muda
O mundo gira
E ele esquecido
Parado
Quieto
Adormecido
Quando o homem pássaro se esquece do outro
A morte surge
A solidão mata
E ele esquecido
Parado
Quieto
Adormecido
Quando o homem pássaro esquece quem é
Secam-lhe as veias
Crescem-lhe os ramos
E ele esquecido
Parado
Quieto
Adormecido
Cria raízes na terra já sem vida
E o homem pássaro já nada lembra
Esquecido
Parado
Quieto
Adormecido
Abre os ramos secos
Afugentando os pássaros
A que outros homens deram vidam