Com_traste

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segunda-feira, 29 de abril de 2013

Da poesia não reza a história



Hoje afogaram-se nas palavras dos poetas todas as mágoas dos homens
Foi decretada a felicidade
Mandado prender o desgosto
E naquela voz nasalada ele declamava com gestos firmes
Morra...pim!
Pam!
Pum!
E morreram todos
Nos sorrisos estampados do público.
A partir de hoje, saiba quem sorri ao ler ou ouvir um poema
Que é um assassino!

O barulho das coisas



Catrapum
Fez a verdade ao cair no chão
E a vergonha corou
Mais tarde
Ao levantarem a verdade do chão
Concluíram que afinal ela se tinha ferido de morte
E que a vergonha não existia
A cor era apenas um toque de batom
Deixada na gola da camisa de alguém
Diz quem viu
Que desde esse dia o rei vai nu
Na terra de cegos

Cremada




Da flor da pele
Retirou a cor e o cheiro
No tronco nu
Desenhou corações com a ponta dos dedos
Olhou-a e chamou-lhe meu amor
E ainda hoje, a mantém num vaso sobre a mesa da sala

É uma árvore delicada, diz olhando para o Bonsai
E rega todos os dias as cinzas

Pouca Terra



O comboio das cinco que passava impreterivelmente às seis em ponto
Trazia o jornal da manhã
Noticias frescas embora o comboio fosse a vapor
E na estação aguardava impaciente um senhor de idade
Já estivera lá no dia anterior e no anterior a esse
Mal se avistava o comboio, acenava um adeus com tamanha alegria, que quem assistia pensava sempre: É hoje, é hoje que finalmente veio.
Mas hoje, mais uma vez, ele depois de acenar baixou os braços..virou costas..e saiu das estação ao som do arrepiante travar das carruagens

Não foi hoje, ainda...
Mas amanhã, no comboio das cinco que chega impreterivelmente às seis..talvez viesse...
Ele voltaria a lá estar impaciente, a acenar alegremente e a virar costas conformado
Não fosse isso, para que viveria então?

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Tocam os sinos na torre da igreja...

Morreu o morto
Diziam os toques do sino da igreja
E ao longe o choro das velhas lavava as ruas
Ai que pena
Ai que dó
Ai tadinho tadinho
Um um dlim dlão sem grande arte
Anunciava a hora...
Para que todos os mortos morressem
Na esquina do largo da aldeia
Os teimosos mortos vivos fumavam as beatas
Mais um, diziam sorridentes
E de olhos cabisbaixos contavam as pedras que faltavam na calçada
Será enterrado amanhã
Disse o coveiro
E alegremente a Dona Amélia abriu a loja das flores
A vida nunca foi tão justa como a morte
Dão à vida filhos da puta
Morrem sempre os bons!
No dia seguinte, as ruas da aldeia que ligavam a igreja ao cemitério, encheram-se de dores no peito
É uma pena, disseram uns turistas que passaram por acaso, é uma pena estas aldeias morrerem aos poucos...
No outro dia de manhã, a Maria Albertina deu à luz um menino...consta-se que não foi baptizado nem iria ter apelido paterno..
Mais um...disse sabiamente a alcoviteira da aldeia
os sinos tocaram um dlim dlão diferente
Mas na esquina do largo da aldeia..os teimosos mortos vivos fumavam beatas...cabisbaixos...dando um pontapé numa pedra da calçada...

The end

O fim
É aquela coisa escura que não queremos ver
Fechamos os olhos desde o inicio com a força da esperança
Vá, mais um pouco, teimamos
Evitando abrir os olhos e ver
O fim
E ele nasce com tudo o que nos acontece
Como se fosse apêndice ainda sem cólica
Porque nunca, nunca queremos aceitar o facto da mortalidade das coisas
Mas era tão bom que a eternidade fosse igual ao tempo que cada um traz marcado...e conseguisse o milagre de tornar eterno tudo de bom que nos acontece...até ao nosso ultimo dia.
Aqui jaz
O fim

domingo, 21 de abril de 2013

Os Livros


Os livros são pessoas que se juntam
Olhares distantes que se aproximam
Toques para lá da pele e do cheiro
Os livros são as estradas que nos separam
Em palavras que nos mostram nus e verdadeiros
São montanhas que nos escondem
São umbigos perfeitos
De um parto doloroso e natural
Qual parto animal
Que depois se deixa lamber por inteiro
Os livros são as ruas da minha terra
Em festa do sol da primavera
São risos
São crianças
Somos nós em tenra infância
Quando nos damos de uma forma mais singela
São páginas em branco mesmo escritas
São coisa nunca antes assim ditas
São a mão do outro
São a terra
São raízes
São vazio
São tudo o que me queres dizer em silêncio
E tudo o que te quero ler na solidão
São o pão
São algo mais que folhas
São as flores que dão fruto antes do verão
São meus olhos presos
Meu corpo em voo
Mente dormente
Verdade tua que em mim mente
E o contrário...
Mas se quem te lê como tu o sente
Coisa que origina esta comunhão
É o diabo que abusa da gente
E prova a existência desta divina criação.