Com_traste

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quinta-feira, 2 de maio de 2013

Divinos

Se Deus existisse era bom
Disso eu tenho a certeza
Mas ou por malvadeza
Ou pura condição
O Homem criou o mal e chamou-lhe oposição
Ao outro ser que ainda não foi inventado
E nessa altura
O Homem, um homem daqueles mais indignados
Achou por bem usar a razão, e com fé
Disse:
Haja Deus
E Deus houve
Para mal dos nossos pecados
Ele, o tal que acabara de ser criado
Pensou ser mesmo abençoado
E agiu
Fez do mundo esta coisa redonda
Para que não possamos ver mais longe
E quando a lua de nós se esconde
Fazemos de conta o paraíso
E só de noite
Bem no escuro
Assumimos o outro lado
Do mundo que pensamos ter sido criado
Para nossa punição
E caso haja luar
Apontamos o dedo
Quem se atreve a duvidar
Que há um Deus presente
Rezemos como gente
Crentes
Humildes
Carentes
Deixemos na ladainha
Na nossa baba fininha
A dores
Os desejos
Os sonhos
Os prazeres e os medos
Que ao terminar estaremos salvos
Da nossa própria consciência
Entregues em penitência
De nada somos culpados
E em banho Maria nos deixamos
Num baptismo vagaroso
Até que fiquemos no ponto
E num estado mais sólido
Consigamos ser inteiros
Partes
De um todo
Mentiroso
Haja Deus...disse o outro
E como que de um milagre
Esperemos






Droga

Acabou-se o pão
O vinho
Nem o cigarro no deixaram
E agora como matar a força desta vontade
De morrer pelas próprias mãos?
Ah que a vida é bela
E ninguém a pode tirar
Que se te matas não és digno dela
Sê homem e deixa-te matar
Mas eu quero fumar as pedras
A erva
O pó dos mortos que morreram por todos que cá estão
Para que pelos menos consiga agoniar
Sorrindo
Sentido
E saber porque morri com razão
Mas para que quero eu migalhas
Se delas nada mais posso alimentar?
Deixar-me matar com as palhas que aos burros dão para que trabalhem
E eu fumarei essa coisa sorrindo
Direi ao mundo que de mim sou meu dono
E já sem forças
Sem ar
Sem palavras
Irei erguer o punho
Ver miragens
Mas até ao fim
Serei digno.





Náuseas

Dá-me náuseas o imbecil
O rei
O Dono
O escravo submisso
Eu quero agora cheirar Abril
Depois de um Maio cantado em uníssono
De que me serve a razão
A dor
A raiva
Se em cada esquina há um cabrão
Um filho da outra
Vendido
Povo sem ser unido
Ser rastejante
Que não sente
O sangue é um rio que nos une
Mas das veias que cá dentro
Como represas este rio faz correnteza
Nem sempre encontra o mar para desaguar
E cansa
Mata
Desvanece
Toda força que em mim cresce
Porque quebro agora?
Porque perco a força?
Não fosse vê-los loucos a seguir sorrindo para a forca
Talvez nada em mim isto acontecesse
E do meu rio e do teu rio um mar brotasse
Não
Não sou dona da razão
Mas custa ver que um cabrão com fome
Lambe a mão ao capataz
O cu de judas acaso isso lhe fosse pedido
Ah seus vendidos
Ide morrer bem longe
Nem da vossa pequenez são donos
Nem da vossa miséria dignos
Hajam Homens
Que não vermes
Capazes de depois da dor
Dar razão aos seus actos
Que morram
Morram de fartos
Fartos de tanto rastejar
Porque não sois dignos da bandeira
Que tentamos levantar
Ah filhos da puta
Que quase mortos
Ainda beijam a mão ao carrasco
Morram
Morram de fartos
Ou de vergonha dessa triste condição
Porque a mim dão-me náuseas
E sobre as vossas campas me purificarei
Em vómitos!

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Tãntrica

Crescera a calar o que sentia
E um dia
Já quando a garganta sufocava
Aprendeu a tirar prazer do aperto
E mesmo quando tudo falava
Guardava para si um ou outro sentimento
Aprendendo a dar o nó no limite
Sempre bem apertado
Num, é agora...e ainda não
Só ela sabia quanto prazer lhe dava o silêncio
Atado à volta da sua garganta


ExiGente

Do amor
Ela queria aquele cheiro a cama desfeita
Aquela cor rubra nas faces
Aquela voz rouca
Aquele arrepio na pele
Aquele brilho nos olhos
Aquelas mãos em busca do infinito
E aquela palavra
A palavra proibida
Dita vezes sem conta
Do amor
Depois de usado
Ela não queria mais nada
A não ser a ousadia
A ousadia no meio da rua
Exposta a vontade em gestos íntimos
E o risco
Correr o risco de os julgarem mesmo amantes
Ah como o amor a excitava!


O sentido obrigatório da vida

Amanheceu cedo
As manhãs sempre foram de hábitos
Ele aproveitou o sentido de oportunidade
E acordou em sintonia com o dia
Sempre foi pessoa de acompanhar os outros nas desgraças
Há quem tema que ele morra por isso mesmo
Há quem o tenha ouvido dizer que ninguém deve morrer sozinho
Mas com o sentido de dever cumprido
Saiu porta fora para levar a manhã a passear
Era vê-los de braço dando
Rindo
O sentido de humor era coisa que não lhe faltava
E quem tem sentido de humor ama sorrindo
Não possuía um grande sentido de orientação
E perdia-se sempre nos sentidos proibidos
Vivia a maioria do tempo em contra mão
Mas isso era coisa que não o incomodava
Sentia-se bem ao contrário do mundo
Não fosse o sentido obrigatório ser tão profundo
Ele teria por certo tido outro destino
Assim, o sentido obrigatório deste mundo´
Mesmo para aqueles que ao contrário andam
Obriga que nem que por uma única vez na vida
Se morra...porque sim.


Um mãos largas

Escrevia na palma da mão destinos
Tinha tendências suicidas
Desenhava sempre nos pulsos, uns pequenos pontos espaçados como picotado em folha de papel
Quando finalmente se matou
Foi num poema
E nele dizia apenas
SOS
Ele sabia que mais cedo ou mais tarde iria largar a mão
Presa a um amor qualquer