Com_traste

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segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

pssiu

Pssiuu Pai Natal

Só uma perguntinha, é mesmo verdade que só entrega presentes no sapatinho ??




quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Do Papel




Dos Homens maiores
Fazem-se livros
E quando morrem seres imortais
Rios de tinta desaguam nos sentidos
Dando a cor real às veias
E da ponta dos dedos as marcas em paginas geniais
Lambe-se num prazer repetido
Notas de roda pé invisíveis
Só para leitores obsessivos
Um posfácio lido como prefacio
No desejo incontido de matar a saudade
Em vez dos homens imortais
E como num voltar às origens
Estes Homens ...morrem de pé

Era uma vez um botão

Um botão

Era uma vez um botão
Redondinho
Preto
E com 2 buraquinhos ao centro
Era um botão muito jeitoso e já tinha tido várias casas
Não se sabe bem como nem porquê
Agora estava a viver numa caixa abrigo
Ele, um dedal enferrujado, dois tubos de linhas de alinhavar,
uma caixinha de agulhas de vários tamanhos, quatro tubos de linhas pretas, dois de brancas, um amarelo, uma agulha de lã, duas agulhas de fazer tricô, uns molhinhos de linhas para ponto cruz, um rolo de elástico grosso, um rolo de elástico fino, um ovo de madeira e alguns objectos não identificados..
Era uma caixa abrigo como outra qualquer
Havia quem dissesse que era uma sorte existir esta caixa abrigo, principalmente agora na época dos pronto a vestir.
Diziam ainda que os tempos são outros e que as coisas são mesmo assim...
Fazer bainhas, mudar um fecho, colocar um botão que fora por maus caminhos ou tentar arranjar seja o que for, era coisa que custaria uma fortuna, além de já nem se encontrar quem soubesse ou quisesse fazer tais coisas.
Mas o botão sempre fora um botão irrequieto, passava a vida a entrar e a sair de casa e a sentir que era valorizado..lembrava-se ainda do tempo em que mal ele se soltava alguém gritava preocupadissimo que perdera o botão...e logo era procurado e comodamente colocado no seu lugar por umas mãos hábeis e experientes no assunto
Agora custava-lhe isto!
Não ter nada que fazer, estar ali no meio de tanta coisa em desuso
à espera de ...uns dedos, umas mãos, um toque saudoso..até à hora em que a caixa abrigo apagasse a luz numa despedida sem sentido, entre dias que se uniam uns nos outros como os números do calendário...
Cansado de ser um botão perdido, uma coisa, um peso na caixa, resolveu fugir e convenceu uma agulha e um tubo de linhas pretas a irem com ele..mundo fora, tentar a sorte mesmo que desabrigados.
Mas não se sabe bem como nem porquê, no preciso momento em que se preparavam para fugir, umas mãos pegaram na agulha e na linha e de uma forma algo violenta mas certeira...fizeram com que a agulha entrasse e saísse pelos buraquinhos do botão prendendo-o a um cartão que dizia assim:

SE TEM UMA CASA SEM BOTÃO
NÓS SOMOS A SOLUÇÃO
NÃO COMPRE
FAÇA
DÊ USO AO USADO

(DIZEM QUE É O ANO EUROPEU PARA O ENVELHECIMENTO ACTIVO... como raio querem que me mexa assim? ..pensou o botão')


Pena suspensa




A pena
É um pássaro ferido
Sem saber o norte
É um voo perdido
Um erro
Um castigo
A pena
É um gosto já desgosto
Uma culpa confessada
Uma mão enrugada
Um adeus no cais
A pena
São os olhos quase cegos
Num afogar de magoas
Num invisível sentir
A pena
É uma prosa antiga
Um rasgo de pele em papel
Uma palavra inimiga
A pena
É leveza contrária
É culpa desnecessária
De um ser decadente
A pena
É pele da gente
Nua
Depois de se ter matado a perfeição
A pena
É aquela dor no coração
Pelo erro assumido
Fosse ela sem castigo
E talvez não tivesse a pena
De um crime cometido
Suspensa ainda no ar
A pena
Amor dorido
É nunca ter entendido
Porque tinha que acabar
A pena
É um pássaro em gaiola
Um barco afundado
Todos os beijos que ficaram por dar

http://www.youtube.com/watch?v=IzF32qOm9LQ

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Da mudança




Pintava os lábios com as mãos tremulas
Queria tanto ficar bonita
E se não fosse aquela cor que condizia com a roupa?
Ou aquele brilho fosse exagerado?
Borrava os lábios com as costas da mão
Num gesto brusco de quem decide não arriscar
E este bem que continuavam a fazer movimentos sensuais
Mas único que sorria era o espelho
Divertido com o ridiculo da situação
Os olhos
Negros e inquietos
Tiveram vezes sem conto uma sombra cinza
Mas apagara tantas vezes quantas pintara
E o cinza já negro confundia-se no olhar
Que lacrimejava aproveitando o alibi
O sinal
Que no rosto crescera com ela
Fora disfarçado cuidadosamente
Mas ao olhar-se não reconhecia o seu reflexo
E recusava-se a sair com estranhos
Em segundos a pinta aparecia no mesmo sitio
Sem ser tão grande como pensara
O cabelo
De um negro quase irreal
Ora preso à nuca contendo todos os pensamentos de liberdade
Ora solto, livre..contrariando todos os seus desejos de prisão
Sempre fora um cabelo meio rebelde
A roupa
Fora sempre neutra
Não evidenciando grande personalidade
Quiça por receio de se impor e causar discussão
Deixava-se misturar sem grande alarido de cores
E as velhas jeans eram as únicas que pareciam actuais todos os dias
E de nada adiantava o vestido de chita sonhar em ser 10 cm menor
Habituara-se aos joelhos e já nem tentava levantar com o vento
Há coisas com que não vale a pena teimar
A roupa mais intima
Ruborizava cada vez que secava no estendal
Chegando a desejar que chovesse em pleno verão
Ela
Acabava sempre pro sair à rua de lábios nus
Olhos negros
Sinal no rosto
E no corpo...toda o conflito interior
Mas caminhava segura...
Talvez porque os sapatos já conhecia aquele caminho...e os seus pés, há muito que deixaram de sonhar

Vidas provisórias... Ou mortalhas inúteis





Já só lhe restava a mortalha
O tabaco acabara-se há muito
E agora os tempos estavam frios
As noites ao lume tinham o mesmo tamanho
Longas esperas de dias
E ele ali sentado contando o que se conta ao serão
Histórias
De um menino rabino
De um jovem sonhador
Da guerra
Da guerra e das dores
E depois os dias sorridentes
Uma Maria
Mulher robusta, de peito farto e cheia de cores
Mãe dos quatro filhos dele mas a quem sempre trocara os nomes
E isso que importa?
Eles sorriam
E riam repetindo sempre a mesma ladainha
Não é o zé..é o chico!
Não sou o Mané sou o Jacinto, pai!!
E a Maria que os parira, abanando a cabeça e limpando as mãos ao avental, repetia entre dentes..
Não tivesse ele chapéu e eu diria que lhe faltava alguma coisa para segurar aquele cabelo...
Agora, nas histórias que contava à noite ao serão
Lembrava tudo...até os nomes certos de cada rosto
Mas, a Maria fora-se antes dele
Morrera de desgosto, diziam na aldeia ao lembrar o acidente fatídico nas minas.
Nesse tempo ainda havia trabalho para os homens da terra e era lá que os filhos se faziam homens...quando não morria meninos.
Já só lhe restava a mortalha
Que ele teimava em enrolar entre os dedos...como se enrolam memórias que se esfumaram...quando ainda havia tabaco.

Sobe e desce...

Tenho quase tudo para ser feliz
Falta-me a coragem de enlouquecer.




Coloco a escada que leva lá
Vezes sem conto...
E olho-a
Arrisco antes mais um cigarro
Como quem guarda no peito a hora da morte
Um som qualquer, vindo do lado de lá
Chega a mim sussurrado pelo reflexo
Tento concentrar-me, em vão
Conto os degraus
E são sempre mais do que eram no ultimo conto
Estarei mais cansada eu?
Ou velha demais para me perder em contas
Do lado de lá há sempre qualquer coisa mais
Tenho a esperança que seja o quase que me falta
Mas quedo-me com todas as outra que são reflexos
De uma felicidade
Fica-se pelo primeiro degrau da vertigem
E tal como o cigarro
Mantenho a imagem prometida em contagem
Apenas preciso decidir se é crescente ou de...
Num jogo individual em que controlo a alucinação
De uma escada e de um espelho
Que me transporta...caso eu tenha coragem de ir