Com_traste

Com_traste

sexta-feira, 15 de março de 2013

Despensamento II

Ela foi a noiva mais bonita que alguém vira naquela aldeia
Um lindo vestido branco
Um véu a cobrir o rosto
E nas mãos um ramo de amores perfeitos
Ainda hoje há fotos recortadas do jornal da aldeia
Por todas as campas do cemitério
Emolduradas em mármore branco
O coveiro é o único sobrevivente daquele dia
Quando lhe perguntam porque nunca casou, sorri
Encolhe os ombros e diz:
Nesta data ainda era muito novo
O jardineiro da aldeia era o meu pai
Ela, a noiva, a minha mãe
E fui eu que colhi as flores para o ramo
Sabia lá eu que com isso
Iria enfurecer o meu pai
Por aquelas serem as ultimas flores da espécie
E o padre
Por me saber filho de uma noiva não virgem
Todos os casados da aldeia
Por se sentirem ridículos
Todos os solteiros
Por terem perdido a ilusão
E depois disto
Comecei a enterrar os corpos
E como raio quer você que eu deseje morrer tão novo?

Despensamento I

Ele morreu de amor
Passado alguns meses foi descoberta a cura para tal maleita
A sorte é que como doou o corpo para a ciência
Puderam fazer sérios avanços na descoberta da vacina contra o ódio

quinta-feira, 14 de março de 2013

09-03-2013

De repente
Abre-se o peito inteiro
Como para albergar um mundo
E entram todos que do meu peito são
Que sempre cá moraram
Mas ou por obra do destino
Ou por falta de atenção
Viviam silenciados
Como que adormecidos
E um a um são sorrisos
Histórias
Sentimento
Um ou outro lamento
Memórias
Coisas boas
São vidas encruzilhadas
Como estradas em labirinto
E eu percorro uma a uma e sinto
Este sentir emocionado
De quem sente o significado do caminho
Mesmo sem ser assinalado
É um sentido orientado
Num pulsar cá dentro
Na pele que sendo deles é minha
Talvez haja um segredo que se descobre sempre tarde
Como o pote cheio de ouro num fim de um arco colorido
É assim este sentir feliz e encantado
Por de peito aberto
Peito cheio
Peito habitado
Bater em uníssono
Um coração enxertado
Sem perder a pureza da primeira gota que lhe deu vida







segunda-feira, 4 de março de 2013

Nu feminino



Não insistas
Deixa o mito
Larga doçura
Grita da alma
Sê nua
Que de nada te valerá
Ser cria
Coisa tua
Se guardas virgem e casta
A fêmea pura
A mente falsa
Com que te batizaram os Deus
Passa a mão vagarosa
Num acto obsceno e intimo
Agarra o fio
Lambe o decote
Faz do pulso fraco
O sexo forte
E dança
Dança louca criatura
Nu feminino
Exposto
É teu o corpo
Do primeiro ao ultimo acto
Toma-te vaidosa
Retira o cinto
O baraço
Faz do nó o laço
Enfeita-te de provocação
Que corem a ponta dos dedos
Por vergonha
Por malícia
Desbrava a própria perícia
Que nunca tiveras antes
Pendura-te no Pelourinho
Venda-te
Queima-te
Mata-te
E nua
Envergonha o mundo imundo
Que te castrou
Num orgasmo egoísta





Clichê



Trago uma mão cheia
Dormente
Em gestos vazios
Em lugares comuns
Dada com a frequência exagerada do adeus
A toda a gente

Tempo sem modo



O meu estado é ébrio
Consciente
Escolho a alucinação dos dias
Sorvo-te alma
Vendida
Do copo de corpo cheio que não desiste
O meu estado é ébrio
Nada triste
Troca o real pelo que para mim existe
Estado objectivamente alucinado
Pelo que sou sem pena
Depenado
O meu estado é ébrio
Assumido
Com o rotulo de pura poesia
E em tombos ando
Em covas durmo
Em palavras me deito
O meu estado é ébrio
Pendente
Num tempo
Num estado
Inconsciente







Quebranto



Já de nada importa a consciência
Abrupta
A realidade
Ele nunca irá entender as causas da sua incompreensão
O tempo era frágil
Como são frágeis todos os sonhos de menino
E talvez por isso nem deu por o tempo passar em pedaços
Quebranto
O peso que sentia nos olhos
E a sensação de tonturas constantes quando teimava em voar
Lembrava-se de em tempos idos lhe benzerem a testa ao som de ladainhas estranhas
E que sorria
De nada valeram
Continuava mau olhado pelo mundo
E agora insiste em puxar da memória
Como quem puxa carroça carregada de peso morto
Custa uma eternidade lembrar daquelas palavras em ladainha
Queria sorrir e ser ele próprio a originar esse sorriso
Uma ou outra palavra surgia do nada
Sem nexo
sem ordem
Sem efeito
Nessas alturas queria ter crença
Esta é como o sal
Faz toda a diferença
Uma pitada ou uma mão cheia
Porque é dele que se fazem as lágrimas e a sua ausência
Que raiva!
E este era o único sentimento que tinha
Mas nem lhe possibilitava o sorriso por não saber que o sentia
Mentia
Sentia também o espanto, a admiração
Pela diferença...
Porque seriam todos os outros tão estranhos?
E mesmo assim ele amava-os
Talvez por ter ainda a esperança
Não tão pesada como a memória
Que ele puxava como quem puxa um papagaio de papel ao vento
Sendo ele que sopra
Quiça com ele lhe venham à memória sons
Sons em ladainha
E ele sorri
Quebranto
Abrupta a realidade quando precisamos de inventar rezas no vento
Porque já de nada importa a consciência
Que como gotas de azeite se mistura com a água
E umas pitadas de sal...