Com_traste

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quinta-feira, 5 de agosto de 2010

YIN e YANG


yin e yang

Para o bem e para o mal
Fui
A luz e a escuridão
Maça com bicho de ilusão
Fruta fresca da paixão
Fui o doce da pele
O fel
O picante no chocolate
A menina das traças em teus olhos
A outra
A santa
A mulher prendada
Suada
usada
A louca
A falta de tempo
A eternidade
Fui
O sabor da tua boca
A constante incerta
Covarde de arma em punho
O sonho realizado
Quimera
A prosa na poesia
A mão dada e largada
A força bruta
A mimada
Fui palavra que não se forma por pudor
A letra soletrada do amor
A dor
Fui o laço de cetim e a corda da forca
Fui a saliva que te afoga
A seca que te alimenta
A contrabandista dos teus olhos
A proposta indecente
A recusa
A dedada do copo
O corpo amarrotado
A pureza do vinho derramado
Fui
Um fio de cabelo
Um brinco de prata
A jóia sem valor
A fortuna
Ingrata
Fui tonta
Criança
Gargalhada no soluço
A droga pura
O veneno sem antídoto
A morte anunciada
O esperma vertido no ventre infértil
Prenhe e parto
Fui
Água em cascata
A montanha e o vale
Fui eu e tu
Num nó(s) sem laços
Fui um Tanto de coisa tão Pouca
Fui Tudo de um Nada que se inventa
Quando o Eu… é uma Outra que a sustenta

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Mari_Prosa


Desde sempre que era assim…
Doce como a conversa dos amantes
Livre como as palavras dos sábios.
Ela descia os montes soletrando sílabas
Pequenos sons, que continha ao tentar não cair
Corria pelas encostas das palavras mais bruscas
Dizendo todas as outras que saíam sem medo
Como que desafiando a queda dos palavrões escondidos.
Depois sorrindo aconchegava as palavras sem dono
Dando-lhe guarida no peito
Dando-lhe sentido nos sonhos.
Não passava um dia em que não risse com o vento
Ao ver que ele lhe roubava as palavras logo que saiam da boca.
Depois, ia brincar com eco e redescobria muitas outras que não dizia
Nas noites frias, enrolava-se em frases quentes
Para depois cobrir com ela os bons dias
e passear na rua os poemas sorridentes
Na primavera,
fazia jangadas de versos soltos para atravessar o rio do tempo
Gritando palavras ao vento fazia corar a terra.
Chegava o verão e ela lá ia,
De vestido de rosas bordadas no peito
Na cabeça um laço feito
E na mão, todas palavras das canções de romaria
Que dava depois a quem pedia,
dançavam as palavras que trazia
com todas as outras que ouvia
num baile daquela terra.
Era a moça mais bonita
A cachopa mais airosa
A moçoila mais prendada
Ela fazia do que via
E de tudo o que vivia
Palavras de amor
Palavras dadas.
Chamava-se Maria
E parecia as borboletas no campo.
E sempre que ela sorria ou alguma coisa dizia...

A “Mari…Prosa” voava.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

SEM CARTA DE RECOMENDAÇÃO NEM LIVRO DE RECLAMAÇÕES


Era noite,
talvez a noite mais escura de todas as noites.
A lua saíra à pressa parecendo adivinhar coisa ruim,
ela sabia que só os amantes sentiriam sua falta e esses inventariam um outro lugar para sonhar.
As estrelas, essas escondidas entre a escuridão, pareciam cintilar a medo, mal se viam propositadamente.
A rua silenciada pela hora tardia, aparentava cansaço, uso, desgaste.
Desejava a manhã para que passos apressados, correrias infantis e vagarosos caminhares, lhe devolvessem a imagem de rua com vida de verdade.
Uma ou outra voz soava a sussurrar, talvez contendo o grito de raiva ou o gemido de prazer, mas era tarde demais para vontades.
E restava o vento, a ir e vir assim pela noite escura, querendo arrancar as folhas que teimavam em se prender à vida, querendo calar o silêncio da noite num turbilhão de sons medonhos que só nos corações dos meninos pareciam ser ondas do mar, mas no dos homens vividos eram uivos.
E foi ai, nessa noite escura,
talvez a noite mais escura de todas as noites,
que nasceu a consciência de ti... existindo longe

À Deriva


Como barcos de vela recolhida
Antes que o vento nos leve para fora dos sonhos
Secamos a pele dos dias frios
Nos raios tímidos de um sol fora de tempo
E na chuva que não pára de cair
Inventamos um mar de ondas calmas
Para que no fim do dia as tardes aparentem ser de verão
E assim somos a tempestade no mar alto
E a calmaria das águas ao por do sol
Sempre que o leme teime em nos guiar para fora de nós
Deitamos ancora e ficamos assim por mais um tempo…
Ali, onde o rio já é quase mar…
E nós somos nós…quase.

domingo, 11 de julho de 2010

ANCORA-D-OURO


Cansada de navegar por mares já antes navegados
Repetem-se as paisagens idílicas de quem traz miragens nos olhos
Uma e outra vez afundamos
Uma e outra vez voltamos a navegar
Icem as velas
Agarrem o leme
Sem rumo vamos em frente
As vagas fustigam os corpos cansados
O sal e sol consomem a pele já quase sangue

As gaivotas já deixaram de voar há muito
Não há mais mar para lá do horizonte

Solto a âncora em terra de Ninguém
Ai é porto seguro

sábado, 10 de julho de 2010

Corpo Manuscrito


Molhei a pena com que escrevia a distância
Na saliva que restava do beijo em rodapé
Manuscrito em letra primária
Cuidadosamente desenhava a palavra amor.

Tão cuidadosamente quanto sentida

Molhava a pena que separava a vontade das asas
Nas lágrimas doces cozinhadas em lume brando
Num caldeirão de sonhos de menina
Lentamente soletrava o teu nome

Tão lentamente quanto o escrevia

Molhava a pena no suor do rosto
Depois de noites e noites sem adormecer o desejo
Chegava ao fim do poema inacabado
Deixando em branco todas as linhas do meu corpo.

Tão brancas quanto a pena com que escrevia

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Procura-se, morta ou viva, a imaginação do meu criador.


.Fazer… Desfazendo

Posso ser até um monstro dos vossos pesadelos nocturnos
Um anjo dos vossos desejos de santidade e pureza
Façam-me Deusa
Ou diabo de saias
Façam-me um doce recheado do pecado que vos atormenta
A maçã já podre que Adão não quis morder (gajos!)
A Eva ,de parra em queda livre corando pudica..mente
Juntem as peças do puzzle, uma a uma,
Encaixem os pés na zona dos braços,
A cabeça fora do sitio
Percam a parte de um coração alado
Joguem ao ar os dados viciados e gritem loucos..batota!!
Inventem-me, refazendo a roleta russa onde quem morre é sempre o ultimo que dis(Z)...para.
Comandem à distância os membros do boneco articulado que sou
Qual marioneta tonta.. que diz que disse um outro qualquer
Pinóquio ou Gato das Botas
Cinderela e Branca de Neve
Contem-me nas estórias recontadas
Façam-me andar em roda cantada
Serei a fada, a bruxa a outra mal amada
O pecado cruel.
Mas por favor
Inventem-me sem ser Mulher
Deixem-me ser assexuada
Porque para tão mal imaginada ...prefiro ser diferente do meu criador.

Se não me sabem…inventem-me se faz favor!