Com_traste

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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Livre arbítrio

Tinha a carta de alforria numa mão
Na outra a digital impressão que a prendia
A decisão seria tomada em jejum
Em mágoas comprimidas a murro
Só precisava de conseguir não engolir em seco
Dia após dia

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

AG

Dá-me uma palavra
Uma frase
Uma mão
Um sinal
Dá-me um pouco do que és quando inteiro
Mas dá de forma simples
Pura
Verdadeira
Porque parte de coisa inteira
Sendo dada assim
É um todo
Um ombro
Um colo
Um mar
Uma imensidão
E nada mais será preciso
Porque
Partes
Inteiras
São assim...como as linhas do destino
Que se cruzam num aperto de mão


terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A rigor

Tinha o nó tão apertado
Pensava enquanto enlaçava a gravata
Num gesto mecânico
Todos os dias, à mesma hora
Apenas mudava a cor
E engolindo em seco
O ar sufocante do T0 feito à sua medida
Nu
Apertou mais ainda
Juntando a ponta dos dedos num gesto elegante
Delicadamente
Sorrindo
Mais...
Mais...
E mais ainda
Até ao fim.

Dividas

Fizeram amor tal como viviam
De uma forma provisória
Com gestos a prazo
Juros de mora
Contas intermináveis de beijos por dar
Um e outro sabiam-se mortais
Não deixariam heranças
Para além de filhos incógnitos
De pais estéreis

Bicho

Tal como os Bichos, de Torga
Personalizo-me
Na minha verdade
Na minha coerência
Na minha liberdade
Indiferente à subjectividade disto tudo
Aninho-me
Dócil e fiel
Ou ataco
Feroz e agilmente
O naco de vida
Como quem ama o bicho que mata

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Sem_tença

Tiras-me as palavras da boca
E lamentas que nunca te tenha dito Amo-te
Facto concreto
O silêncio como álibi
De nada vale roubares o que querias ouvir
Abortas a possibilidade
Matas a esperança
E condenas-te à prisão perpétua da eternidade da incerteza
Como testemunha de defesa
Levas um sorriso nos lábios
E um brilhozinho nos olhos
Talvez haja apelo
Ou a cegueira da justiça te veja disforme
E me condene a falar
Na linguagem gestual que nunca entendeste
Exiges provas
E trazem-te o vinho em cálice de cristal
Afinal a pena é de morte
Da palavra que bebes sem a nunca teres escutado
o

Teorias

A maçã está podre
E o bicho que tentava o Homem fugiu
A Gravidade não está na velocidade com que a dita nos pode cair na cabeça
Porque a relatividade existe e dela dependem umas coisas das outras
A gravidade está no facto, de que sem o bicho, o Homem não pense em morder a carne do fruto proibido
O desejo de descobrir a que sabe e o que é, perdeu-se no tempo
E entretanto, o cheiro nauseabundo da estupidez humana, aliado às nódoas negras cerebrais causadas pela queda das maçãs, faz de nós uns seres em decadência
Os ritmos ou velocidades destes entendimento, serão proporcionais ao tempo de contacto que tens com outros seres, ao local do acidente e ao gosto subjectivo de cada um
Quem nunca gostou de maçãs com bicho, terá talvez mais facilidade de aceitar a sua fuga, ou quiça, nem dá por tal desaparecimento
Mal dos Homens que viviam em função do bicho tentador
Agora morrem de tédio
De medo, de nunca mais conseguirem entender o mundo
De pena, mais de si que dos outros ignorantes
E agora?
Abatam-se as árvores!