Com_traste

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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Reflexos... controversos


Por vezes calo-me
E nesse silêncio, a audição do que penso acontece de forma mais clara
Verbalizo então o resultado daquele raciocínio
E faz-se luz na consciência do que realmente sou
Como sombra ilumina naquela hora
Sai à pressa porta fora
E em ausência se faz, por não querer quebrar cristais
Mas ouve-se o som da fractura
E sangram os rostos em contorcidas expressões
Na junção dos mundos paralelos
Acontece o ponto de encontro quotidiano
Por hábitos quase sagrados
Os sorrisos SOS
Os cumprimentos deslavados
Entre a bica e o cigarro
Existem todas as outras horas
Por vezes o deixar de fumar seria a solução para a aceitação
Não fosse quase impossível deixar o vicio…de mim mesma
E aquela mesa seria apenas minha, entre café e café
Seria ousadia olhar a outro espelho e ver o mesmo reflexo
Mas não deixo de ver reflectido o que também sei ser
Mas é algo controverso
Este ser e já não ser
E saber ilegíveis os meus poemas
Escritos entre realidades paralelas
Com letra manuscrita de tinta pouco permanente
Na mesa do centro, no café central do meu mundo umbilical
Nada mais que eu mesma gira em seu redor
Em espiral ,como agua a ir-se pelo cano, depois de um banho de aguas turvas
Restando umas pequenas gotas a escorrer pelas minhas paredes
Em regos, marcado os dias em que nada se diz, por já não ser possível
E nessa insistência se existe quase todos os dias…i
Incrivelmente desiguais e semelhantes a todos os outros.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Metamorfose


Depois do dilúvio das palavras
Fez-se barca
Casulo sem fios de seda
Feito de baba enraivecida
De bílis
Azeda
Onde se deitou adormecida
Sem contos de fadas para contar
Pele seca escamosa
Criatura monstruosa
Desigual
Iria dormir cem anos
Ou talvez nem acordar
Fazer-se gente
Calar para ser decente
Sorrir
Rir
Encantar
Não teve o dom das palavras doces
Nem a beleza sedutora dos gestos bem cuidados
Não tinha rosas no cabelo
Nem vestido de laços delicados
Atravessava a rua sem olhar
Jogava ao pião
Chamavam-lhe furacão
Agia sem muito pensar
Depois afogava-se nas palavras
Sentires na flor da pele em turbilhão
E chorava e ria na mesma hora
Caia
Morria de exaustão
Desta vez babou a raiva
Nesses fios de bílis endurecidos
Teceu com fúria
Envolta nas sombras de quem a forma
Seria a sua ultima condenação
Prisão perpetua
Aquela que não entendem
E das palavras que julgava compreensão
Fez o escudo para sua protecção
Consciente do seu fel
Mas não sendo cruel
Esperaria a hora da transformação
Até que morresse depois num bater de asas…momentâneo
E sentir a leveza da sua própria ausência
Livre de si sendo apenas ela
Não o outro que se transforma em nós
Por defeito da mutação que nunca soube completar
Como bicho estranho
Que finda, entrando no seu próprio ventre
Para se auto fecundar
Talvez um dia parir-se noutra vida
E não precisar de morrer para ressuscitar










quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Era uma vez..


O livro jaz vazio, como se não soubesse da obrigatoriedade de se morrer cheio…mesmo que de nadas fosse.
Algures a morte anunciada no jornal local, fazia saber aos mais distraídos, da possibilidade de mortes impossíveis.
Uns falaram de suicídio do escritor, ainda novo, não aguentara a pressão dos críticos e antes que dele falassem, matara-se.
Outros, desmentiam o facto, dizendo ter sido suicídio social…há muito que era do conhecimento geral a impossibilidade de se viver à margem, como clandestino, ousando ser diferente, inventando histórias, criando factos, vivendo assumidamente…vivendo.
Outros ainda afirmavam saber de uma investigação policial, assegurando existirem testemunhas do crime…o escritor fora morto pela sua própria imaginação, um personagem cometera o crime por não aceitar ser ele a vitima.
O governo fez sair um comunicado de imprensa, informava do acto de Eutanásia… afirmavam existir a vontade expressa da vitima, escrita num guardanapo de papel (onde se viam marcas de lábios ainda, supostamente femininos), e que o autor de tal vontade seria julgado logo que fosse possível saber o seu paradeiro.
E o livro continuava ali..morto e vazio, não se sabe se mais vazio ou mais morto…numa espera de algo único e especial.
Se alguém tivesse duvidas da sua existência, enquanto possibilidade de ser, poderia verificar a dureza da capa, a suavidade e brancuras das páginas..o peso, mesmo que vazio..o peso que ainda assim possuía…
Algo assim, só poderia ser algo real…
E por vezes morre-se antes de se ser todas as possibilidades…
E como pesa essa possibilidade do ser!
Mas há sempre quem leia o livro branco e consiga decifrar nas linhas vazias, a silhueta da história. Rindo, chorando, admirando-se, ficando ansioso e passando as páginas ao ritmo da sua criatividade e imaginação.
Por vezes lê a ausência de uma “assentada, não importando a posição em que o faz. Outras há em que deixa o marcador naquela página, dias e dias, apenas voltando a ela quando o tempo para nada fazer lhe permite esse luxo.
Estes livros são histórias intermináveis, não importando seguir a ordem das páginas, podendo começar pelo fim…mas acabam sempre quando já não mais nos apetece ler….ou matamos o personagem principal, capturando o criminoso que condenamos à prisão perpetua (nunca a pena de morte é usada, embora seja legal neste estado…de alma) ou a história é de amor, e o fim é daqueles em que a ultima página terá marcas de agua salgada…e ondas de corpos naquele leito.

Crónicas Marcianas


Tem dias em que
O mundo está cheio de coisas perfeitas
E de gente cega
Outros
O mundo está cheio de coisas imperfeitas
E de gente cega
Moral da história

Nem tudo tem dias!

Matrioshka


Eu sou um todo de partes que desconheço
Encaixo-me em mim como se me pertencesse
Ajeitando-me às formas que me formam
Faço-me uma, irreal
Outras, uma outra imaginária
Ainda por vezes a invisível
E tantas, tantas outras, a porca de pérolas ao peito
A cabra
A raiva
O sal
Se trinco a língua, mordo todas as palavras do momento
Serei a cobra e o veneno
Dos factos
Do parto
O sangue verdadeiro
E não me obriguem a morder o ar
Prefiro antes ser cega, surda e muda
Que trincar apenas o nada que acontece
Morder a consciência com asas
Lamber o mel dos vossos sorrisos
Quando me ferem de morte
Enraivecida
Mas não minto
Terei sempre a certeza que nem todos os erros são meus
E na cova que me deitam
Guardarei todas as outras
Cá dentro
E sei que quem as conhece
Sabe o jeito de as manter vivas
Na única delas que me forma
Multiplicando-me na divisão
Unindo-me na separação
E se ficar oca…sinto!

Parvoíces! (apeteceu e pronto!)


Contam
Que um dia um Homem foi à pesca e caçou um Homem
Sim, naquele tempo ele dividia-se entre a pesca e a caça
Mas foi na pesca que caçou um Homem
Ou o Homem deixou-se caçar, sei lá
A questão está em que nessa altura não havia épocas
Quer dizer, havia épocas, mas elas ainda não tinham sido marcadas por quem de direito
E esse facto dava a ilusão da sua não existência, e os Homens eram livres de pescar e caçar todo o tempo
Ou todo o tempo em que a sua vontade e fome lhes apertasse
Pescando aquilo que picasse
Caçando aquilo que aparecesse
Nessa altura ainda o desporto também não tinha sido inventado
E praticava-se sem ter consciência
Talvez por isso os corpos depois se desenvolveram de uma forma tão bela…
Ora bem..
O Homem que foi caçado quando um outro Homem foi à pesca
Não era presa fácil
Lutou com quantas forças tinhas e até com a fraqueza também
De nada lhe valeu
Houvessem nessa altura as “reservas” e acredito que o Homem teria tido alguma sorte
Alegando estar ali por engano
Ou até defender-se por ser fora de época
Mas não..nada disso surgiu em tempo útil
Talvez porque o poder nessa altura não era assim tão útil, e as terras, os animais e as coisas eram naturalmente usadas
Mas a natureza humana é esta, e caça e pesca desde que começou a meter na cabeça aquela coisa da evolução, deixando para trás a ideia de um Deus qualquer, que de certeza nunca teria dado ordens nesse sentido
Esta desobediência humana, baseada na ideia da sua natureza, foi a única causadora deste facto
Mas um Homem que é Homem, quando por desgraça é caçado, mesmo quando um outro anda apenas à pesca, não se entrega assim à desgraça, dá luta..se necessário usa de armas ilegais até, outras vezes utiliza a sua maior arma e se tiver sorte…dá a volta ao Homem pescador inventando quiçá uma anedota qualquer sobre os mentirosos..
Consta que foi desde essa altura que o Homem caçado passou a ser utilizado como engodo…
E ainda hoje, o Homem que caça outro Homem, lança a linha com o mesmo isco…sem “reservas” ou épocas estabelecidas..
Uma e outra vez…até que haja a verdadeira Revolução e os animais voltem a falar como antes.

Bichinhos...


Quando te sorriem os olhos
No branco nu do lençol de linho
Vês a fera que se lança sobre ti
Afiando as garras nos dentes
Instintivamente ris
Nervoso
De medo
Do gozo
Que te dá o acto
De te deixares possuir por ela
E serenas o instinto selvagem
Para que se invertam as sensações
E no branco nu do lençol de linho
Aninhas-te na espera
Presa condenada
À morte nas garras da fera alimentada por ti.