Com_traste

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domingo, 2 de novembro de 2014

...

Não é que tenha saudades
Mas lembro-me muito de ti
Não é que seja muito muito
Mas é assim pela manhã, porque o sol me lembra a tua luz
Pela tardinha, porque é sempre aquela hora calma e terna como tu
E quando chega a noite, porque no escuro conseguias ver-me tão bem
Não é que tenha saudades
Mas lembro-me muito de ti
Não é que seja muito muito
Mas é assim com força
Quando te lembro, fecho os olhos muito muito apertadinhos
E sinto os teus beijos nas minhas pálpebras
Quando te lembro, fecho as mãos com muita muita força
E sinto as tuas mãos nas minhas
Quando te lembro,contenho a respiração até não poder mais
E o teu cheiro percorre-me as entranhas e sai-me pelos poros
Quando te lembro, sinto-me feliz
Doí um pouquinho
Quando me sinto feliz por te lembrar
Não é assim muito muito muito
Nem com muita muita força
É de manhã, à tarde é à noite
E apenas quando mal consigo respirar ou mover-me
Não é que tenha saudades, entendes?
Mas lembro-me muito de ti...

Ela

Livre de dogmas e solta de paradigmas
Assim se ergueu a liberdade pela manhã
Na missa, aguardavam a sua ausência
Na rua, comentavam a sua passagem
Algures, no intimo de cada um
Desejavam a noite
Pois só nos sonhos a possuíam
Ou por medo
Ou por vergonha
Ou até apenas por ignorância
Seria sempre assim...
A não ser que...
A prendessem

domingo, 4 de maio de 2014



Quando o sol se põe
E a lua se perdeu algures
O alinhamento das estrelas
São os candeeiros da rua inclinada
De calçada incerta
E tu
Estrela cadente
Afundas-te no espaço vazio do leito
Que é o peito aberto
Cova de defuntos
Adormecidos

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

RIP

Foi quando resolveu cortar os pulsos, que a corda em volta do pescoço apertou
Nada faria prever, que o tiro certeiro acabaria de ser dado à queima roupa...
Nos vestígios deixados pelo maremoto...ainda boiava o frasco de cicuta
O único folgo que lhe restava foi dado num beijo sufocante de despedida
E foi assim que de nada lhe serviram as sete vidas que tivera

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Post it

Não esquecer
Não esquecer nunca
Que finjo
Lembrar
Lembrar sempre
Que minto
E escreve-lo em todos os papeis que represento
Haja vento
E sorte
E um dia ainda a verdade me virá parar às mãos
Num acaso da vida
Isso, se até lá conseguir escrever de forma legível
Todas as letras
Ou a memória deixe de me trair
Ou eu...

post scriptum

Sempre os Homens
Só os Homens
Os Eus de um Deus umbilical
E eu quero os pássaros
Os insectos
Os bichos selvagens
As árvores mortas e as árvores reencarnadas
E a árvores orvalhadas, tenras, viçosas e vivas
E as pedras
Ai como eu adoro as pedras
Grandes
Pequenas
Redondas
Da calçada calada
Da lua...sonhada
Da berma do caminho
E aquela noite
E aquele dia
Que passam silenciosos
E as estrelas em queda livre
E a liberdade do tempo
Ainda por contar
Ai como eu gosto dos vultos
Sombras medonhas
Fantasmas meus
E risos
Abraços
Sorrisos
Da criança feliz
E da infeliz
Que sem ser Homem diz
Tudo o que poderia ser o ser humano
Acaso não fossem Homens
E a culpa desta minha infelicidade
É saber que os Dinossauros sonhavam uma outra coisa da vida
Sempre os Homens
Só os Homens
A contradizer a teoria da evolução
E eu queria ser um peixe alado
Ou uma qualquer pedra...na lua.

(imagem: http://www.acrobatsublime.com/photographs.php)

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Servi Domini


Porque nos devoram os monstros sociais
E depois de comidos querem mais e mais
E nós alimentamo-nos de ilusões
Somos puras contradições
Individuais, doses fatais
Alimento para animais
Porque não morrem enfartados?
Trincam e lambem os lábios
Babosos glutões
Nada na borda do prato
Afogamo-nos na sopa com a pedra no sapato
Morrendo de cansaço, boiando como excrementos neste esgoto
Ok, não somos gente
Mas sombras de um criador, que se esqueceu de nos tirar a dor
E nos deixou acreditar na fantasia
Reprodução em cadeia
Sem grades para que possamos afiar as limas
E usamos as unhas esgravatando a terra
Fazendo covas para plantar defuntos
Que depois de bem cuidados crescerão viçosos nas nuvens
Alados girassóis
Que seguirão eternamente a luz divina
Que sina!
E a semente de gente?
Serve de alimento ao patrão
Que em dia sem remuneração
Acusa
Abusa
Explora
E nós pedindo esmola
Na porta da consciência urbana
Infestada de peste suína
Desumana
Doença roubada para pura carnificina
Ide em fila
Porcos imundos
Redundantes seres animados
Agradecei em voz baixa e de olhos no chão
Para que querem mais que um naco de pão?
Já não há pulmão para gritos de revolta
Droga de criatura pura
Essa maldita habilidade que insistem meter nas veias
Dignidade?
Ilegal sentimento
Não lhes chega o demente pensamento
Querem mais?
Agora cortem os pulsos que precisamos de dar cor à pátria
Não há maior honra que servir de pigmento
Amanhã é dia santo
Podereis chorar em vão
Alegremente florir campas
Uma ou outra oração
E basta!
Para o ano há mais cultura
Festas são procissões
Vistam os meninos de anjinhos
As virgens com seus filhinhos
E aleluia senhor!
E não adianta não ser crente
Somos UM ilusoriamente
Formando a massa compacta da estupidez humana