Com_traste

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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Venham mais cinco...


Quando a realidade aparece turva
Quando falamos e ninguém nos entende
Destilamos os venenos que nos consomem dia a dia
E fazemos revoluções num copo de vinho
Falamos para nos ouvirmos
Com uma certeza momentânea de verdade
Achamos todas resposta em nós mesmos
Somos ditadores da palavra
Do sentir…
Como se atrevem a não pensar como nós?
Que loucura a deles ao dizerem o que dizem..
Nada faz mais sentido do que a nossa visão das coisas
Vamos ao cume da satisfação egocêntrica quando não obtemos resposta ao que questionamos
Sentimo-nos grandes
Donos da verdade
Choramos indignados quando os outros dizem barbaridades
Dói sentir que naquele momento poderíamos ser o rei
Mas que insistem em não nos seguir
Está tão claro para nós…
Naquele momento somos toda a verdade
E ninguém nos segue…
Porquê?
Pedimos mais um copo
Pode ser que a realidade mude antes que acabe o vinho.
Depois?
Resta-nos a rua com calçada incerta
Para que possamos culpabilizar os outros
Dos nossos tombos
E no dia seguinte sentir que algo aconteceu ali
Mais uma vez não fomos nada mais que
Bebedeiras inconsequentes
Revoluções em copos de vinho
E ainda esperamos mudar o mundo?
Mais um se faz favor…
Cheio e fresco
Para que adormeça a certeza da realidade.
E da nossa incapacidade enquanto sóbrios …

transplante de pele...


Na ponta dos dedos o transplante
Da pele outra nas minhas mão
Digitalizada na alma
Saboreada na língua
Pinturas rupestres
Nas costas
Asas feitas de papel de rebuçado
Pegadas em lençóis molhados
Figuras recortadas em almofadas de cetim
Teatro de guerra corpo a corpo
Comando à distância na voz
Festim de gulosas bocas
Ninho de aves loucas
Cama
Chão
Mesa
Silêncio
Acção
Sonolência
Pão
Frutos vermelhos
Torradas na palma da mão

Acordar de novo
E sentir dormentes ainda os teus nos meus dedos
Pintar a unha do dedo com mel
Saborear o néctar da tua pele
Beber o verde dos olhos negros
Frescos os beijos nos lábios rubros
Mastigando o suco do fruto em gomos
Deixando pelo chão as horas
Sendo noite com dia lá fora
E voltando a desfazer a casa
A cama
A vida
A pele
Para depois no fumo de um cigarro
Intoxicar a incerteza do amanhã
E em cada toque de cada um dos nossos dedos
Deixar a marca da alma do outro
Documentos nunca mais identificados
Somos dois mas baralhados
Resta-nos
Rasgar a foto do papel
Falsificados..dirão os outros
E nós passaremos fronteira sorrindo
Mostrando a ponta dos nossos dedos como prova
Da nossa identidade…comum!

nº 554


Havia uma janela junto à cama
Tinha a certeza de já ter espreitado por ela muitas vezes
Era de madeira, pintada de branco
De vidros cristalinos quase inexistentes ao olhar
De cortinas soltas, brancas com rosas amarelas
Com uma fita verde a enlaçar as pontas
Havia uma janela junto à cama
Tinha a certeza!!
Lembrava-se ainda dos dias da chuva que salpicava a vidraça
Em que desenhava nuvens e cavalos voadores
Quando aproximava a sua respiração quente
transformando a janela em ardósia de sonhos
E quando o vento uivava fazendo bater a fechadura
Frágil e insegura
A um ritmo assustador
Lembrava-se de ter desejado um vendaval em cada batida do coração
Para poder lançar-se em voo livre com as cortinas como asas
Havia uma janela junto a cama,
Tinha a certeza!!
Recordava o ultimo verão
Em que o calor dilatava os poros
E a madeira ressequida fazia estalar a tinta
Mostrando a madeira bruta de que era feita
Com marcas de pregos já despregados
Com frestas a deixar passar a luz
E de como se mantinha fechada para que não entrasse o calor abrasador
Era uma janela pequena
Mas existia ali junto à cama desde sempre
Tinha a certeza!!
Do lado de fora a paisagem mudava como nos filmes…
Ora deserto
Ora oásis
Ora um corrupio de gente a andar sem direcção aparente
Ora um largo de aldeia com a igreja no meio, a badalar horas passadas.
Tinha dias em que via o rosto de uma mulher a espreitar pela vidraça…acenava e partia sempre…trazia um vestido branco com rosas amarelas e uma fita verde a enlaçar os cabelos negros.
Era o nº554 e o único com permissão para ter em seu poder um lápis de carvão e sonhos…cediam sempre um ultimo desejo…

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Tem gente? Não, tem Bicho!


Enquanto aguarda o tempo
Ousa respirar em pequenos sopros
Contemplando o interior do pensamento confuso
Ao mesmo tempo que se surpreende com a realidade exterior
Reencontra-se na imagem interior de si mesmo
Nada faz mais sentido que a desorientação de um pensamento
Em labirínticos recantos
Perde-se do que pensa pensar
Encontra-se naquilo que nunca imaginou
E dessa catástrofe surge a esperança
Num sorriso único de vitória
Afinal é isso que todos somos
Um pensamento que um dia surge em nós pela primeira vez
Um sopro de tempo antes de acontecer o tempo
Uma possibilidade
Uma descoberta
Um crime sem pena
Um ser que nunca se saberá completamente
Mas que ousa ser sem autorização divina
O bicho da maçã …

Espera ainda calçado...


Esperava

Já há algum tempo que era assim a espera…
Serena e simultaneamente inquieta.
Só o pensamento e o coração sabiam o seu segredo
O rosto e as mãos ilibavam-no da culpa.
Poderia haver um vendaval que as folhas do jornal, que diariamente folheava, nem mexiam.
Apertava a mão, aos que com ele cruzavam, com a firmeza dos homens calmos e seguros.
O espelho que o enfrentava todas as manhãs não poderia culpa-lo de nada…
Ele nem pestanejava ao desfazer a barba, nem mesmo quando acidentalmente se feria..
A mão segura, por vezes distraia-se com o pensamento inquieto,
O espelho ria
Mas ele deixava calmamente sangrar a ferida e controlava a dor.
Franzindo a testa, deixando o sobrolho momentaneamente recordar outros tempos…quando ainda se mostrava inteiro.
O dia corria com a normalidade de sempre
De fato e gravata, sapatos pretos de cordão bem apertado, seguia como se o tempo fosse todo dele…o mundo fosse dele…
A rua barulhenta e suja não o assustava, caminhava de olhos postos no horizonte limpando os sapatos de cada vez que um grão de pó os sujava.
“Ninguém caminha como tu”
“Parece que danças…”
“gosto tanto dos teus sapatos”
Parecia ainda ouvir a voz dela..
Era assim desde aquele dia em que o amor o deixou
Ela dissera:
“Eu volto!”
E ele deixou-se na espera ficar calçado.
Parece que não envelheceu, nem sabe ao certo há quanto tempo foi.
À noite, quando se deita apenas porque tem que descansar o corpo, o pensamento enrola-se em cada batida do coração
O coração aperta-se em cada pensamento dela.
A certeza da sua existência transformaram-no ..agora é sempre assim…um homem com um belo par de sapatos nos pés.
Na cadeira ao lado, o fato e gravata para o dia seguinte.
Tudo no lugar certo
Os sapatos nos pés…nunca se sabe quando ela irá chegar…
Dorme calçado para não perder tempo…e poder dançar novamente como antes..assim que ela chegue e o olhe.
Ele espera voltarem a ser…
Quatro pés e dois sapatos pretos.
Era nos seus pés que ela se calçava para dançar…terminando sempre num beijo

sábado, 30 de janeiro de 2010

Queijo fresco...


Tinha a faca e o queijo na mão
Mas apetecia-lhe bolo de “nos” com passas
Não matou a fome
Já tentara três vezes cortando os pulsos à dita
Mas a desdita acabava sempre por não sangrar
E sem sangue não se fazem cabidelas
Colocou então no cabide o único casaco da pele que possuía
Deixando dentro do umbigo as migalhas
Nu deitou-se no chão gélido
Faca numa mão
Queijo na outra
Queria tanto ter a vontade…que adormeceu pensando nela
Ao acordar, mesmo se a vontade viesse, seria tarde
O queijo matara a forma ao roedor faminto
Vagabundo dos buracos escuros e podres
Que mesmo sem faca não morre de vontade dela
Só lhe restaria a faca
E dois pulsos
Mas…mesmo já tarde a vontade viera
Sem nada que colocar na outra mão
Guardou a vontade no umbigo…
Esqueceu-se até que existiam bolos de “nos” com passas
E ficou à espera
Quem sabe um dia não voltará o queijo?

Resta saber...
Quanto tempo de vida terá uma faca
e por quanto tempo se pode guardar uma vontade

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Meus Deus!


Homem bomba
Com coração sempre armadilhado
Lançador de facas contra maçãs de pecado
Acertava sempre na dúvida
Atirador a alvos descentralizados
Na mira a anormalidade
O desuso de factos ou fatos
Traziam nos acordos a possibilidade de entendimento
O verão prometia uma colecção bizarra
Ele seria modelo e estilista
A parra cairia na passadeira de cor negra
Outono seria a estação mais próxima
E nas senhoras colocaria botões na pele de pétala rosa
Depois esperaria o próximo comboio para decidir ficar no mesmo sitio
Nada estaria no fim sem que antes ele pudesse colocar o ponto.
Decidira então escrever no bilhete furado
O revisor seria convocado pela própria arma
À mesma hora, num qualquer local, aconteceria o prometido
Bastaria chegar antes do final do tempo
Cronómetro colocado na bomba descontrolada
Salvaria todas a vidas
Bastaria cortar o fio certo da navalha afiada
E não mais deixar que a maçã se dividisse em duas.
Uma maçã inteira seria a recompensa
O prazer da dentada até no bicho
Ele seria o salvador do mundo que acabara de bombardear.